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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Primeiro tema de discussão de 2012

Caros participantes da Escola de Pais,
retomamos as nossas atividades em 2012, com a leitura e discussão do texto da Helle Heckmann, que a nossa participante Luciana Michelini gentilmente traduziu para que pudéssemos ter mais entendimento sobre a importância do ritmo, de estabelecer limites e de ser flexível com consciência na formação dos nossos filhos.
Postaremos em breve mais textos que já foram discutidos na Escola de Pais que servem de referência e dão subsídios para este tema tão importante.
Boa leitura!


Ritmo diário em casa e sua relevância ao longo da vida
por Helle Heckmann

Como pais de crianças pequenas, você está constantemente muito cansado e sempre dorme pouco, e quando você dorme muito pouco, tem muito pouca energia e então, muitas vezes você cede, quando, na verdade, acha que não deveria ter cedido. Ou fica com raiva ou irritado, e dessa forma não fica presente, e quando vc não está presente você “perde” seu filho e assim você não se gosta...
Para tornar mais fácil lidar com a vida cotidiana com seus filhos, existem três considerações importantes:

·         Ser flexível
·         Estabelecer limites (fronteiras)
·         Observar a mesma rotina todos os dias
Tornar-se flexível é o resultado de uma observação interior objetiva. Você pode treinar sua flexibilidade através de um trabalho interno no qual você aprende sobre si mesmo. Em relação aos limites, você tem que descobri-los por si mesmo. Você deve decidir quais são os limites para o seu filho em sua casa: o horário de ir para cama, o horário de comer, o que comer, qual a linguagem a ser usada em família e assim por diante. Você tem que ter estabelecido a sua opinião sobre os limites previamente. Assim, em vez de dizer "não, não, não …" e ficar irritado, você simplesmente não permite que as crianças ultrapassem os limites. Você sabe que essa é uma decisão sua e não precisa mais ficar irritado. Se você está à frente da criança e percebe aquela certa situação se aproximando, com humor e o gesto ou a palavra corretos, você pode afastar a situação. Isso será possível se você exercitar sua flexibilidade. Conhecer-se melhor lhe dará a possibilidade de também estar à frente de você mesmo. Quando você apreende essa ferramenta, você pode começar a lidar com seus filhos de uma forma muito mais livre porque os limites já estão estabelecidos.
A terceira recomendação, a de fazer uma rotina que seja a mesma todo dia, garante a criança ritmo. Todas as famílias Waldorf, provavelmente, conhecem a vida cotidiana no Jardim da Infância. As crianças passam o dia em períodos alternados de concentração e expansão, como no ritmo da respiração, onde há o inalar e o exalar. Na fase de inalação ou inspiração, a criança direciona sua atenção para uma atividade que basicamente a relaciona a ela mesma. Para as crianças pequenas, cada período de inspiração (desenho, aquarela, tricô, comer…) é muito curto, porque os pequenos podem concentrar-se apenas por curtos períodos de tempo. No período de exalação ou expiração, a criança se refere principalmente ao mundo ao seu redor (brincar livre, correr livremente, etc.). Para cada período de inspiração a criança precisa de um período de expiração e assim um padrão é estabelecido. Esse ritmo é algo que você pode trazer para dentro da sua casa. Você tem que tentar descobrir quando as crianças “inspiram” e quando elas “expiram”. E quando a criança está no período de inspiração, você tem q ter certeza que estará presente, de maneira que a criança sinta “Ahhh, aqui eu sinto meus pais, eles estão lá por mim!”. Depois disso, por bem pouco tempo, você pode fazer o que tem que fazer em casa e você pode dizer para criança “Você tem q esperar porque eu preciso fazer isso”. E será tudo bem porque você sabe que esteve presente com a criança. Por exemplo, observe a situação quando os pais pegam seus filhos no Jardim. No exato momento que você está pegando seu filho: O celular toca e você atende? Você cumprimenta seus amigos e inicia uma conversa intensa? Se a resposta for sim, então você não está presente com a criança. Na minha ultima visita ao México, vi muito poucos pais saudando seus filhos, a maioria estava conversando com outros pais ou envolvidos em assuntos da escola ou falando em seus celulares, ou chegando atrasados, ou com muita pressa.
Mas, para seu filho que esteve fora há cinco horas e realmente quer você… Você não está lá. Então a criança grita: “Quero sorvete! Quero isso! Quero aquilo!” ou então ela começa a correr ou a cair ou a se meter em pequenas encrencas porque ela está confusa, pois na verdade ela te viu, mas não te encontrou. Do contrario, se você tomar o tempo (e isso talvez leve 5 segundos) de se abaixar, dar-lhe um abraço e então cheirá-lo (tão lindo! tão querido!) e assim realmente ESTAR lá, seus olhinhos lhe dirão, muito mais do que palavras, como foi o seu dia. Ele não pode contar-lhe com palavras, pois não se lembra, mas seus olhos lhe contarão tudo. Então, você o toma pela mão e andam juntos (num passo que a criança possa acompanhar, é claro!), e isso é realmente amável pois assim você está criando um belo momento, um “momento você e eu”. Agora, se vc precisa cumprimentar as pessoas, você já pode, rapidamente, mas sempre junto com a criança porque ela sentirá “Eu estou onde pertenço, junto com minha mãe/ pai”. Esse foi um momento de inspiração- momento para dentro (a breathing-in situation) onde vc esteve de fato presente. Daí vocês vão até o carro e vão para casa (expiração – momento para fora) e provavelmente é hora de comer, surgindo novamente outro momento de inspiração - para dentro.
Como vocês comem?
Você se senta junto com a criança?
Ou a criança se senta sozinha para comer enquanto você fica por perto e aproveita para falar ao telefone?
Se você se dá o tempo de sentar com seu filho, você o ensinará boas maneiras a mesa através do seu exemplo. Muitas crianças hoje não se sentam a mesa com seus pais e assim não aprendem a manejar os talheres e utensílios adequadamente. No entanto, isso é muito importante, pois do contrario, quando eles completam sete anos, não conseguem segurar adequadamente o lápis. E aprender isso aos sete anos é bem mais difícil comparado entre um e dois anos. Alem disso, sentar-se a mesa e ter um começo, o processo e um fim é importante pois é assim que você deve viver a sua vida inteira. Tudo tem um começo, um processo e um fim. Isso pode tomar-lhe apenas 15 minutos, para sentar-se apropriadamente, checar como a criança segura os talheres e o copo (crianças de um ano em diante não precisam de copos especiais de bebes, aqueles com bico e tampa), comer com a boca fechada e tudo o mais, sendo você, dessa forma, um exemplo a ser seguido para seu filho e ainda mais importante, você tomou esse breve momento para novamente criar outro “momento você e eu” ao mesmo tempo em que você ajuda seu filho a conhecer uma forma social de “como nós somos quando comemos juntos”. Ao terminar a refeição, você o lembra de que ele precisa ajudar com a mesa, de maneira que ele também aprenda que quando somos parte de uma comunidade (ambiente social), também participamos da limpeza. Dessa maneira você fez e criou uma situação na qual esteve realmente presente e então pode dizer para a criança “Vá brincar” (momento de expiração – para fora), pois você esteve presente anteriormente e então pode fazer o que precisa fazer, mas precisa estar visível para a criança. Assim é, porque a criança pequena não pode brincar sozinha se o centro não está lá e você é a pessoa mais importante para a criança. Você é o centro e se você sai do ambiente, a criança a seguirá. Quando você está fazendo as suas coisas, pode acontecer da criança dizer “Estou entediado”. Nesse caso, é claro, não ligue a TV nem coloque música. Quando você está ocupada com outras coisas, você pode dizer para a criança “Agora você pode brincar sozinho”. Se você sabe que esteve de fato presente, você pode esperar de verdade que eles encontrem algo para fazer por eles mesmos. É muito importante que você não tenha medo de que suas crianças não saibam o que fazer ou que estejam entediadas. É muito importante que você sinta realmente “Estive com eles e agora podem ficar com eles mesmos”.
Atualmente, os pais freqüentemente usam a mídia ou atividades direcionadas por adultos para entreter seus filhos, porque eles tem medo de que suas crianças fiquem entediadas, assumindo que elas não são capazes de fazer nada por si mesmas. Essa é uma situação complicada. Se você acha que tem q entreter seu filho menor de sete anos o tempo todo com mídia (filmes, TV, videogames, computadores, etc.), aulas extracurriculares e/ ou outras atividades guiadas por adultos, então eles não aprenderão como brincar sozinhos. Eles não terão um momento no qual possam estar num estado de não saber o que fazer e daí partir para um estado de encontrar imagens interiores e assim criar coisas de dentro para fora. Deixando-os entediados, você os ajuda, porque esse momento representa a oportunidade que as crianças tem de mergulhar no processo de criatividade interior. O fato de que as crianças são capazes de ficarem por sua própria conta, para criar suas próprias brincadeiras sem a direção de um adulto é de extrema importância, porque durante os sete primeiros anos da criança tudo se relaciona com o fato de ser capaz de criar. Se todas as atividades vem do lado de fora (telas eletrônicas, videogames, direcionamento de adultos, etc.), então não acontece muita coisa na esfera da criação interior. É por isso que nos Jardins Waldorf, as professoras não se sentam para brincar com as crianças, ao invés disso, elas fazem trabalho de verdade, do qual as crianças retiraram inspiração para suas próprias brincadeiras. Nesses Jardins da Infância, você poderá encontrar professoras varrendo, cozinhando, costurando, podando o canteiro, cuidando de animais da fazenda, cortando lenha e o que mais o ambiente de cada escola permitir. Igualmente, vocês, como pais, no momento de expiração – para fora, devem fazer seu trabalho e a criança ao seu lado deveria ser capaz de fazer o dela (que é brincar). Isso só é possível se a criança sente que ela esteve com você num momento anterior de inspiração – momento para dentro.
É o mesmo quando as crianças vão para cama. O que a criança ama ouvir são histórias da sua própria vida. Nenhum livro, rádio, música, filme ou desenho animado pode causar o impacto na criança que você pode. E encontrar sua própria história para contar tem muito significado e alem disso, é uma ferramenta com a qual você pode mudar varias situações que estão emperradas. É muito difícil para a criança se apartar de você se ela não sentiu sua presença realmente. Mas, se vc abraçou sua criança, soprou um pouquinho sua orelhinha, contou-lhe uma historia do seu coração... Você esteve presente de verdade, então você pode beijá-la e colocá-la na cama e sentir “Eu posso deixá-la porque estive realmente presente”. Daí você pode esperar que sua criança seja capaz de dormir sozinha, e isso é saudável para ela.
Do lugar de onde eu vim, a Dinamarca, muitos pais estão numa situação onde eles tem que deitar e segurar as mãos da criança, ler 20 historias, cantar 50 canções e tudo isso leva uma hora, uma hora e meia e quando finalmente eles estão saindo do quarto silenciosamente, eles ouvem “Maaaa, água! Mamaaaae!”. E claro, ficam irritados. Você pode evitar isso colocando limites e encontrando um jeito confortável de sair porque esteve presente em diversas situações durante o dia. Do contrario, a criança não foi preenchida suficientemente com seu amor e, alem disso, se não lhe foram dadas oportunidades de criar sua própria brincadeira, de trabalhar de dentro para fora, você não pode esperar que ela seja capaz de pegar no sono e dormir por ela mesma.
Gostaria de chamar atenção para outro aspecto do período “depois da escola” no qual você está com seus filhos. Se você leva seus filhos da escola para outras aulas ou confia-os as diversas variações da mídia, você passa menos tempo com eles. Crianças são pequenas por um período muito curto. Agora você pode achar que é ainda muito tempo pela frente, mas em apenas um momento você perceberá como passou rápido. Deixando seu filho se envolver com sua própria brincadeira enquanto você está por perto fazendo suas próprias tarefas e estando realmente presente nas situações de inspiração – situações para dentro, você constrói a genuína confiança entre você e seu filho. Essa confiança será importante quando eles crescerem um pouco e chegarem à pré-puberdade e na puberdade propriamente dita, porque ai eles virão até você quando tiverem problemas e te ouvirão quando você disser o que fazer e o que não fazer. Mas eles apenas farão esse movimento se confiarem em você, se você esteve presente com eles anteriormente. E é por isso que os sete primeiros anos de vida da criança são tão importantes. Toda a confiança interna da criança, sua crença em que o mundo é bom, são a base de sua vida futura.
Depois dos sete primeiros anos, são os amigos que se tornam o foco. Os amigos que a criança escolhe tem muito a ver com a moralidade demonstrada a ela por você e construída através dos primeiros sete anos. Alem disso, se a ela foi dada a oportunidade de trabalhar internamente, ela conhecerá ela mesma e será capaz de dizer “não” quando encontrar alguma coisa da qual não goste e “sim” para o que de fato quer. Você pode escolher quando conhece a si mesmo e um ser humano que é capaz de escolher tem uma auto-estima saudável. Nesse contexto, é importante como o Jardim da Infância e o lar da criança se relacionam: deve existir uma ponte de um mundo para o outro. De certa forma, é um pouco difícil para as famílias que escolhem a educação Waldorf para seus filhos tornarem-se diferentes do mainstream, mas essa é sua escolha. Você não pode realizar as duas opções. Uma vez que você tomou a estrada da consciência, você está consciente sobre alimentação, sobre educação e tudo o mais. Fazer a ponte entre o Jardim Waldorf e a sua casa é obviamente importante, pois a criança pode perceber que tudo se encaixa e faz sentido. Por isso é incrivelmente importante construir confiança entre o Jardim e a família, através da qual a professora do Jardim seja capaz de apoiar essa escolha da família, mas também para a família respeitar o que é trazido no Jardim, de maneira que uma coisa sem a outra não é nada. Então, vocês precisam encontrar o caminho juntos.
Eu tenho três filhos com 29, 26 e 23 e agora eu posso colher 25 anos de trabalho duro e dedicado com meus filhos. É tão fantástico porque posso ver como eles são capazes de ir para vida com liberdade. E eu também posso me mover ao redor do mundo, com liberdade e sabedoria porque eles não precisam mais de mim, mas gostam de mim e também de estar com os amigos deles. E isso é, eu acho, a maior coisa que desejamos como pais, que quando nossos filhos forem adultos, de verdade e pela sua livre escola, escolham estar conosco em certos momentos. Podemos encontrar, junto com nossos filhos, um novo jeito de construir relações sociais porque temos outra consciência através da qual podemos conhecer melhor nossos filhos.
Helle Heckmann é uma educadora Waldorf da Dinamarca. Livros e um DVD sobre seu trabalho realizado em Nokken, local proximo de Copenhagen, estão disponíveis atraves da WECAN. Helle tambem oferece cursos e oficinas em todo o mundo e esteve presente na Escola Waldorf Rudolf Steiner no 2.o semestre de 2011 para palestra aberta para os pais.

O texto acima sao notas de um discurso proferido no México em 2011 e publicado na revista da Escola Waldorf de Cuernavaca. Este artigo foi publicado no Kindling: The Journal for Steiner Waldorf Early Childhood Care and Education (UK)  - Outono / Inverno 2011 e no site “Waldorf Today” foi reproduzido com sua gentil permissão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

MAPA DO BRINCAR - Folha de São Paulo

Em 2009 a Folha de São Paulo criou o projeto " O Mapa do Brincar" , que foi ampliado em 2011.
São várias sugestões de brincadeiras de diversas regiões do Brasil. Acesse http://mapadobrincar.folha.com.br e conheça mais sobre o projeto. Você pode inclusive enviar sugestões de brincadeiras.
Leia abaixo a descrição do projeto, que também consta no site:
O Mapa do Brincar é uma iniciativa da "Folhinha", suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo. O site reúne hoje 750 brincadeiras de todo o país. 
A primeira versão do projeto foi lançada em maio de 2009, quando convidou crianças de todo o país a contar quais são suas brincadeiras. Um dos objetivos era descobrir se há semelhanças e diferenças entre o brincar no Brasil. De maio a julho do mesmo ano, a "Folhinha" recebeu 10.204 inscrições de crianças das cinco regiões do país, com participação maior do Sul e do Sudeste.
Em alguns Estados, a equipe da "Folhinha" também coletou brincadeiras diretamente com as crianças, mas sempre preservando os relatos infantis. Todo esse material enviado (ou coletado) foi lido e analisado por uma equipe de especialistas na área do brincar.
O site ganhou nova versão em dezembro de 2011, quando ampliou o repertório de brincadeiras coletadas pela equipe da "Folhinha" nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Cada brincadeira registrada neste site traz a indicação de sua origem, o que não quer dizer que ela seja só daquele lugar. A origem indica a cidade em que mora o participante que mandou a brincadeira.
Devido à extensão do país e ao rico repertório de brincadeiras das crianças, no entanto, há ainda sempre o que registrar. Por isso, se você conhece brincadeiras (ou variações) da sua região que não estejam no Mapa do Brincar, envie o material para mapadobrincar@uol.com.br. Você também pode enviar memórias do brincar em outras décadas e termos para o glossário das brincadeiras.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Texto da jornalista Elaine Brum sobre os adolescentes

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada


ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais
e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da
Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial,
Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
E-mail: elianebrum@uol.com.br


Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há
pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que
estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais
despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada
porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as
ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço.
Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque
desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre
muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da
felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em
outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à
tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo
tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos
– bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma
continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe
complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja
lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente
não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte
se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que
ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem
que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso
ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos.
Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova
não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um
questionamento importante para quem está educando uma criança ou um
adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a
felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de
muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem
malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues
– sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem
devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal.
Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos
compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do
viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um
mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com
os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades
individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O
valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é
esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece
já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não
estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina.
Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo,
coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no
país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem
esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem
sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como
percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria
estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a
felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma
pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa
de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido.
Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem
terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm
o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver
é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que
seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e
estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias
que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece
deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce
ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil
e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade.
Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo
para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a
felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais
supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem
sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir
desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos
espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um
reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da
felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto
a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer
equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos
e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo
o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise
olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e
aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos
podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o
sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação
está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir
cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as
mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de
garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a
sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a
novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o
que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem
buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo
funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida
inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance.
Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem
porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar
que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que
move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas
imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam
muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa
da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai
ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se
tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso
pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas
e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a
gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante
quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em
quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa
briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é:
“Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou
confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque
fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que
você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil,
incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a
TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio
doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece
tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar
ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem
nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a
escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir
mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque
com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a
responsabilidade pela sua desistência.

"Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor.
Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo

se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba."

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Despertar da Consciência

Leia o texto que a Ana Paula Cury escreveu em 2009 ao inaugurar a Escola de Pais: http://www.slideshare.net/escoladepaisewrs/o-despertar-da-conscincia?from=share_email

Matéria interessante sobre a Escola Waldorf nos Estados Unidos

Vejam a matéria publicada pelo The New York Times sobre as escolas Waldorf, que mostra que o ambiente sem computadores tem atraído pais de companhias de alta tecnologia como o Google. O Professor Waldemar Setzer fez a tradução: http://www.sab.org.br/pedag-wal/artigos/NYT-Waldorf-Peninsula.htm